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Em plena era da música digital, fitas k7 retomam espaço
Por Daniel Perez
Lembro da primeira vez que recebi uma fita cassete com 7 ou 6 músicas de cada lado, todas gravadas da Antena 1 (!!!), de uma menina. Foi algo extraordinário, uma espécie de declaração de amor numa caixinha. Cheguei a ouvir a fita alguns anos depois, já que na época eu não tinha muita inclinação pra curtir as músicas daquela rádio. Porém a sacada da fitinha me fascinou e até hoje ela está comigo –a fita, não a menina.
Pois então, para a alegria de muita gente, a fita cassete ensaia um retorno bem-vindo às nossas rotinas. Talvez não tanto como peça-chave de declarações de amor, como as que muitos já viveram, mas como uma outra investida da mídia independente.
Sendo um produto de baixo custo e grande parceiro do disco de vinil, as caixinhas figuraram na linha de frente da divulgação de muitas bandas independentes e comerciais, chegando a novos ouvintes. Dada à facilidade de distribuição e preço de venda quase simbólico, houve uma proliferação das fitas. Bandas como Thee Butchers Orchestra, Grenade, Nirvana e pra citar o maior dos exemplos, na minha opinião, Racionais MCs, apareceram para o mundo. A primeira vez que ouvi Homem na Estrada foi numa fita pirata, na casa de um amigo, e a fita pirata era o único meio de se ouvir o que se tornaria o maior grupo de rap do país.
A possibilidade de gravar coletâneas era um chamativo interessantíssimo. Ao lado do VHS, as única mídias personalizáveis da época, distantes dos primos ricos MD e CD, o tape cresceu transmitindo também a personalidade de quem a gravava. Como a menina da Antena 1, um amigo que me apresentou Godspeed You! Black Emperor, e o outro dos Racionais, via-se nas compilações uma extensão da pessoa, uma maneira de entender seus sonhos e verdades.
Devaneios à parte, a finada Bizarre, na Galeria do Rock, promovia um intercâmbio de fitas cassete intenso, chegando muitas vezes a aceitar algum material qualquer de qualquer pessoa e deixar ali para ser trocado, vendido, ouvido. A tendência é que tudo isso retorne.
O retorno das fitas resgata algumas particularidades, um charme do processo de gravação e concepção do produto. Parar para ouvir a música, faixa a faixa, é uma tarefa que exige tempo e paciência que hoje muitos não têm. O trabalho do ouvinte de criar vínculos com a música anda um pouco esquecido, o tempo parece estar curto. As gravações exigem que se ouça tudo, que se regule o áudio, que se mude o lado da fita, que se escreva as faixas no encarte e por fim, batize sua nova cria (isso para os mais neuróticos). Fato é que a fitinha te cobra atenção: ou você cede ou corre pra outra mídia. A elaboração das artes, que foi recebendo mais cuidado com a profissionalização das bandas, está potencializada neste retorno. O culto à parte visual do trabalho é traduzido nos encartes maravilhosos que vêm sendo feitos e que certamente custam mais que a própria fita. A qualidade do som, antes questionada, alcançou um status cult e há quem prefira e até use o som vindo das fitas magnéticas em seus trabalhos.
No Rhizome, pode-se conferir 101 selos que vêm usando fitas para divulgar seus artistas. Agora é a hora.

