mar/10

10

A Primeira Noite de uma Buzina

Por Daniel Perez

A noite da primeira edição do Intercâmbio, a festa do Coletivo Buzina Elétrica, teve uma série de situações que pareciam querer transformar a tal Buzina Elétrica em Sanfona Valvulada. A primeira impressão não foi das melhores: Houve atraso no início da festa, as luzes do palco ficaram acesas o tempo inteiro, não havia uma moça simpática e bonita na recepção, o P.A. deu um susto em todos… O tempo e o álcool minaram a angústia inicial, e assim sendo, a festa rolou. Até porque, de qualquer maneira, iria rolar.

Talvez por isso o Intercâmbio tenha assustado algumas pessoas. Nenhum fantasma apareceu, graças à luz constantemente acesa do palco, curiosa dor de cabeça para o Monaural na apresentação do SESC Vila Mariana, poucos dias antes. “Um repeteco de desgraças e novos fantasmas” pensei pela banda, não por mim. No entanto são raros os fantasmas que gostam de se exibir fora das trevas, e na noite de sábado isso ficou ainda mais difícil graças à sinergia musical que ali foi feita.

Quatro bandas e uma plateia destemida foram os grandes protagonistas da noite de 6 de março, que teve tempo feio, público modesto, gambiarras diversas mas, principal e essencialmente, boa música.

No dia anterior, Monaural e Krias de Kafka haviam se apresentado no Central Rock Bar, em Santo André. A ressaca aparentemente faltou ao religioso compromisso do dia seguinte e em nada comprometeu as apresentações no Cidadão do Mundo, marcadas por grandes momentos etílicos e não etílicos dos grupos presentes, como o momento em que o estabelecimento nos deixou na mão quando a cerveja acabou -cedo. Quando isso aconteceu acabei me servindo de um vinho tão vagabundo que o Marcelo nem fez questão de me cobrar.

Quase às 23h, o Monaural voltou dos bares da rua, afinou seus instrumentos, perguntou da luz, recebeu numa resposta vazia algo como “a luz ta zuada, vai ficar assim” e desencanou de insistir em seguida. Foi ao som e por ali mostrou uma apresentação que há tempos eu não via. Sentia um grande chiado, uma pulsação estridente correr em meus ouvidos e em nada me incomodava, pelo contrário. O baixo volume dos microfones acabou não me atrapalhando tanto quanto imaginei, considerando que nos finalmentes eu já ouvia tudo muito bem e não continha um prazer óbvio de estar ali daquele jeito. A nova formação da banda fez uma das suas primeiras -ótimas- apresentações de 2010, e nesta fomos brindados com um gran finale digna duma banda que ostenta a bandeira grunge. Sorte a nossa.


Monaural

Com os sentidos levemente alterados, assisti ao Espasmos do Braço Mecânico, a segunda banda da noite e a que eu melhor conhecia até então. Em meio aos acertos do palco, antes do início definitivo da apresentação, retomei a epopeica jornada etílica, movido por uma necessidade infantil de encobrir a timidez. A fotógrafa da noite, Bianca (improvisada naquela função, naquele dia) tentava capturar todos os momentos interessantes e eu corria de um lado para o outro procurando o que fazer, feito pulga sem cão. Pensava que ébrio eu concatenaria melhor as ideias (!!!) e comprar outra lata me parecia uma tarefa simples demais para uma noite daquelas.

Precisava de algo maior, e enquanto pensava esse monte de besteira soou o primeiro timbre da música do trio, interrompendo meus devaneios absurdos. Assisti ao show portando a câmera fotográfica, procurando alguma maneira de operar um milagre num palco sem luz frontal.


Espasmos do Braço Mecânico

Estava na área superior entrevistando o trio do Monaural quando o Accidents, de Mogi, começou. Desci depois da primeira música, ansioso pra ouvir a banda que mais me chamou a atenção no dia. Rock limpo, coisa fina e rara de se ouvir em muitos lugares. Ainda na labuta das fotos, fiquei colado à caixa de som com o ouvido atento, agora calejado e sempre propício a maiores desgastes.

Àquela altura minha alma já passara a observar o movimento e as pessoas duma maneira onírica e em meio à música do Accidents minha viagem ganhou mais força. Obrigado! Fiquei mais animado, com espírito festeiro. No palco, o power trio se mostrou impecável (assim como todas as bandas, façamos justiça), e ressalto a notória e muito bem-vinda sinergia entre os irmãos Felipe e Juliana, que juntos com o competentíssimo Raphael estão de disco novo, o bacana Sem Ofensas (confira no myspace). Lá fora, no corredor que liga a rua Rio Grande do Sul aos confins de São Caetano, conversei com a banda em meio ao quase silêncio (o Krias estava para começar e fazia seus acertos sonoros) e aos espectros de dois estranhos cidadãos que ficaram naquele espaço conversando e bebendo, compartilhando em meio à garoa da noite de sábado uma fiel e confidente garrafa de vodka. Seguiu-se uma boa conversa com as boas pessoas de Mogi. Com o material coletado, voltei ao Cidadão para conferir a banda que fecharia a noite.


Accidents

O Krias de Kafka estava de volta em um palco do ABC em menos de 24 horas. Recordar é viver: No dia anterior eles também estavam no Central com o Monaural. Abraçando a causa do Buzina, o quinteto se apresentou para quem nunca havia conferido nada dos seus trampos ao vivo, como eu, a Bianca e o Felipe, meus intrépidos companheiros daquela noite. Da garota, conquistaram seu coração e preferência, e dele, elogios respectivos ao som, que comparado ao dia anterior estava bem melhor.

Sei que o Krias, em suas reuniões perto da escada do Cidadão, foram as pessoas que mais sorriram ali, o que ajudou a ganhar a atenção da fotógrafa, que não capturou nenhum sorriso aberto demais de ninguém, e não sei dizer a razão pra isso ter acontecido. A certeza é que todos sorriram mais que o esperado na inacreditável entrevista na qual eles foram incumbidos de fornecer à massiva e inefável mídia do Coletivo, junto com o trio do Espasmos. O que precisou ser discutido para a elocução geral da sociedade foi muito bem pontuado: Vulgaridades, Franz Kafka, cena, os porquês de porquês, a vida, o mundo e tudo mais. Respostas minimalistas, kafkianas, franquezas e feridas expostas. Terminou a primeira festa do Buzina Elétrica, que não virou abóbora no seu debute.


Krias de Kafka

Finda a bagunça, equipamentos recolhidos e alguns esquecidos, todos voltaram sãos e salvos de mais uma noite de boa música. A primeira de tantas, assim esperamos. O resultado será colhido a longo prazo e a expectativa é grande já a curto prazo. Foi grande também minha fome, que encontrou espaço para um rápido lanche da madrugada antes de me render a uma cama que ficou pequena porque foi compartilhada, e depois de desperto e sóbrio, diminuiu ainda mais seu tamanho, pois passei a me incomodar com alguns pés intrusos e a falta de espaço que antes não me incomodara tanto. Mas esse é um problema irrelevante. Nunca uma ressaca me caiu tão bem.

OBS:

Como bem disse o Ayuso do Monaural, as pessoas que viveram os anos 80 e 90 parcial ou completamente, que gravavam música em fitas k7 e videoclipes no videocassete, estão sentindo uma necessidade de se encontrar, de trocar ideias, de fazer girar um novo circuito musical, e isso já vem acontecendo, mesmo que timidamente.

Toda essa movimentação está alheia à má vontade (e ganância) das gravadoras e produtoras que não parecem fazer questão de colocar no mercado música honesta, feita por músicos sinceros. Estes reencontros fortuitos têm gerado estes pequenos movimentos que, juntos, direcionam suas ações para uma só vontade e crescem por si só.

Que continue o trabalho!

*Coincidência ou não, Rogério Skylab disse algo parecido numa entrevista realizada em Londrina, para a revista virtual A Rotativa. Veja aqui

Hasta!

—-

Créditos

Fotos por Bianca Pinto e Daniel Perez

RSS Feed

1 Comentário for A Primeira Noite de uma Buzina

paulissima | 20/03/2010 at 12:47

valeu pelo link ae galera, o site de vcs é show!

Leave a comment!

<<

>>

Buscar

Theme Design by devolux.nh2.me
Adjusted by buzina.eletrica